segunda-feira, 21 de julho de 2008

Na Grande Cortina

Essa é a terceira parte do conto que começa em No Topo da Anti-Escada.

Acordei num galho de ípsilon moderno. Puxei um dáblio bem madurinho e mordi um pedaço: bem gostoso. Desci da letra e caminhei pela floresta. Era tudo meu, mesmo que a cada incursão pela neblina daquele lugar eu descobrisse o infinito desconhecido.

Perto de um agrupamento de éles minúsculos sem serifa havia a ponta de um pedaço de pano que se estendia por dentro da neblina. Perdi de vista, e curioso, resolvi seguir a cortina apalpando sua borda. Segui até uma área na floresta em que há um campo aberto. Foi a primeira vez que eu vi a Grande Cortina. Era de seda, e descia das nuvens e do céu. Uma cortina com muitas camadas de tecido, uns grossos, outros finos. O céu estremeceu e as nuvens se chocaram produzindo dós e sóis bemóis. Os trovões trítonos eram altos e assustadores, profetas de algo que realmente me desagradaria.

Do âmago do céu desceu, escorrendo pela enorme cortina, uma chuva de escovões que produzia o som da agonia. As cerdas duras dos escovões desciam pela seda, torturando meus ouvidos, produzindo uma sensação horrível no meu corpo, que se contorcia em loucura, desprotegido. Corri floresta a dentro como pude, para me afastar daquele som diabólico. A agonia produzia alucinações em minha mente: via nitidamente todas as minhas unhas se quebrando para trás, uma por uma, até a raiz, todas, dos pés e das mãos, sangue e dor escorrendo pela minha pele. Preferi mil vezes a morte.

Desesperado, ao ver o grande espelho éfe, saltei para o estilhaço do fim. O insuportavel se dissolveu em lembrança.

6 comentários:

Lírica disse...

Confesso que resisti em ler este conto pela "repetição" ou continuação do tema. Ao iniciá-lo, senti-o um tanto imaturo... infatil... na liguagem digo. Mas as suas metáforas são sempre surpreendentes! Essa cortina sugestiva de limite consegue ser tanto uma representação de limites horizontais quanto verticais! "Trovões ditongos" é ótimo! A descoberta do novo, apesar da busca, da aceitação do desafio, é arrasadora. Quem suporia uma chuva de escovões? Essa doeu até em mim!
A cortina parece remeter aos limites entre id e superego. Ela pode ser o próprio ego!
E essas unhas quebradas? Representariam a tortura de estar no limite? Ou a perda dolorosa do intrumento com que "cavamos"? Ou um resquício de resolução edipiana que expressa a suposta dor da castração?

compulsão diária disse...

Uau! Victor! Quero um dáblio maduro rs.
sério, agora: muito lindo. As imagens são fortíssimas. A cortina trompe l oeil é sinistra qdo os escovões descem. Lembrou Borges, claro, e de surpresa entrou um som de Don DeLillo - Ruído Branco - já leu? Victor é um absurdo o que vc fez. Sinfonia , trilha sonora no sobe e desce da cortina.
Parabéns!!

AEmarcondes disse...

Po cara..
ta muito bom!
que viagem...

william disse...

"Chuva de escovões que produzia o som da agonia". saltando pro estilhaço do fim.Imaginário e lisergia a todo vapor...

Rachel Souza disse...

"O insuportável se dissolveu em lembrança" Bonita frase! O ritmo é aflitivo,tem uma pegada angustiante nisso.Ui!Muito bom!
Bjo.

Chammé disse...

A títulus de curiosidades: fá bemol é mi, porque entre Mi e Fá há só um semitom de intervalo. Assim, se a cortina tocava Dó e Mi, ela afirmava o tom, que é Dó Maior.