terça-feira, 23 de setembro de 2008

Flamingo de Asas Cortadas

Hoje, ao bater das asas, as luzes vermelhas entoaram a sinfonia dos chilreares. Voei desacompanhado a outras obrigações não menos burocráticas e pesarosas. Já sei que essas asas vão ser cortadas dentro de onze dias, e me felicito pela previsão. Quero outras asas e, antes até, quero andar com minhas pernas gulivéricas através das passarelas que margeiam os faróis sanguíneos da bunda dos carros.

Piso do alto para checar: dou pé daqui das nuvens, então penso que posso descer. Penso que já é hora. Hora de me aborrecer com outras coisas, não com as mesmas. Trocar o pano de tudo, o plano de fundo. É como os outros passarinhos fazem. Qualquer dia paro quietinho só pra rever como os outros passarinhos fazem as coisas. Cheios de agilidade, malícia, todos sabidos. E paro pra ver a bunda dos automóveis.

Há um período de pura satisfação durante o renascimento da asa de um flamingo.

4 comentários:

Lírica disse...

Tá no luto, né?
Mas mto legal que a imagem seja essa de renascimento. E de saber que tem um tempo pra ficar "vendo a bunda dos carros"...

Rachel Souza disse...

Bonito,bonito mesmo!
Tenho me sentido com as asas cortadas igual seu flamingo aí...rs
Gostei da imagem poética do renascimento e tudo.
Bêjo!

RM. disse...

eu gostei!
me lembrou uma fenix!
nao sou cult, e leio harry potter!
beijooo

Luciano Pfeifer disse...

Um vôo rápido e preciso. Me fez pensar sobre.
Obrigado pelas palavras agilmente bem colocadas, bem escritas.