segunda-feira, 13 de julho de 2009

Dádiva do Amarelo

A areia e o céu abocanhavam o mar profuso em tons róseos e a neblina, cheia de branca opacidade, se exibia sem triscar na espuma das ondas, infantaria das montanhas que se revelavam com timidez, quais suaves aquarelas em tons de ciano e maresia. Uma vez, Péco ouviu dizer que sua visão era limitada, mas nunca conseguiu entender. Via perfeitamente o mundo, e a natureza se lhe punha como um banquete para os olhos. Mal sabia que uma revelação o aguardava naquela tarde ébria de mormaço.

Foi então que, dos adágios andarilhos, o mar ganhou vida; à distância, distinguiu-se uma figura indiscutivelmente canina. Parecia mais perto do que na verdade estava - a ilusão disfarçava sua imensidão - quando suas feições, pelos e olhos profundos o atingiram: corria sobre as águas uma fêmea deslumbrante, gorda e vivaz - a cadela mais linda que os olhos safados de Péco já haviam testemunhado.

Aproximou-se, já na areia, lançando sua majestosidade sobre o arfado simplório dele; ela era realmente grande, como um navio. Farejou-o com o enorme focinho, e com isso quis dizer o seguinte: "quero oferecer-te um dom magnífico". Ele ganiu, receoso. Ela respondeu: "se me percebes, me notas e me enxergas, é porque tua alma é grande e sensível, merecedora da minha dádiva". Súbito, a cadela-deusa e o pequeno cão perceberam a chegada d'um terceiro: Joca-pata-de-pau (era preto e vira-lata, de pelos desgrenhados, bigode grisalho e feição honesta; havia perdido uma das patas num acidente e, em seu lugar, um galho retorcido o ajudava a caminhar). Disse a Péco com um latido justo: "Não cai nessa, Péco. Ela é má. Lembra do que aconteceu com o Marcola? E também com o Frido!". Péco lembrou-se da tarde de um sábado há meses atrás. Frido olhava o infinito da maré quando começou a latir sem parar. Depois, partiu desesperado pra dentro do mar e nunca mais foi visto. Com o Marcola foi diferente: disse pros cachorros camaradas que tudo estava mais claro e lúcido, e que ele compreendia o mundo agora. Foi muito enfático quando tentou explicar a existência de um dispositivo de dominação usado pelos homens, mas perdia-se em abstracionismos e metafísica durante as conclusões latidas com tanta segurança. Acontece que ninguém entendia lhufas. Foi ele quem disse que a visão dos cães era limitada, e, desta feita, revelou a existência de um conceito que nenhum cachorro conseguiu compreender: o Amarelo. Dias depois foi internado num canil, após ter ferido seriamente seu dono.

Péco decidiu recusar a dádiva da cadela-deusa. A fúria da fêmea fez o mar insurgir em ondas ameaçadoras, mas Joca inspirou coragem em seu amigo ao começar a latir e esbravejar contra a divindade. Péco se pôs a latir e os dois cãezinhos avançaram vagarosamente. A fêmea, recuando, uivou: "escolheste a ignorância, tal qual este velho diabo vira-lata", e depois latiu com um estrondo profético "mas voltarei assim que quiseres - sabes como me invocar". Assim, sucumbiu aos abismos do mar.

Os dois cães ficaram por ali observando o pôr-do-sol em riscas azuis, vermelhas e lilases. Péco estava satisfeito com sua decisão, e muito agradeceu ao amigo. Mas temia que seu espírito se entregasse, qualquer dia desses, ao desejo de compreender a dádiva do amarelo.


Esse conto faz parte do Projeto Faísca.