sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A Gema de Fliva

"O herói não se vê como herói. A ingenuidade é intrínseca. Se ele atinge essa consciência, o próprio heroismo cai e ele perde a batalha. Afinal, o herói não deveria tirar vantagem do determinismo."

Olhe pela janela. Transforme a primeira coisa que você viu numa enorme mansão, conservando as propriedades do primeiro objeto. Situe-a solitária no baixio de um vale ao poente. Eu estou dentro do maior quarto, no segundo andar. À minha frente jaz o cadáver de Gazember, malfeitor húngaro, que queria pra fins egoístas a gema de Fliva. Me dirigi ao objeto outrora cobiçado - agora meu. Guardava-se dentro de um invólucro pesado de jade, e eu sabia que não se podia ver a gema antes do amanhecer. Teimoso, levantei com as duas mãos a parte de cima da casca protetora, pra que uma luz retumbante ferisse o quarto inteiro com sua intensidade. Caí no chão atordoado, arregalando os olhos. Uma viajem de fosfenos possuiu minha visão e entorpeceu meus sentidos.

Saí da casa depois de me recuperar. As últimas caldas de sol correram vale acima e meus olhos tiveram que se agarrar com força ao mundo homogêneo e monótono que o luar revela. Percebi, num susto, uma sombra, de velocidade ultrassônica, voando baixo na plantação, rumo à mansão. Então voltei rapidamente.

Pela porta dos fundos entrou alguém de manto, sem me perceber. Decidi surpreender o ladino. Fui à porta e a escancarei: estavam na cozinha três belas bruxas, assustadas com a minha entrada. Uma delas me fascinou especialmente (a de cabelos escuros).

- Viemos buscar a gema de Fliva.

Uma ameaça. Mas elas sabiam que a gema só poderia ser retidada de seu invólucro ao amanhecer. A outra taumaturga continuou a atiçar minha virilidade. Avancei e levantei seu corpo, colocando-a sentada no balcão. Ela relaxou as pernas. Aproximei meu rosto ao dela e minha mão direita entrou por debaixo de sua saia - não fui repelido. Já previa o que eu ia dizer. E eu disse:

- Vocês são as bruxas, eu sou o herói.

6 comentários:

Hein, rique disse...

ótimo, joe.
e aproveitando que assisti o anime do castelo animado, a pira ficou ainda mais profunda.

:}

Lírica disse...

Fruto ou gema... proibidos,
uma vez conhecidos...
suscitam em nós o insuspeitável...

Leonardo Curcino disse...

apesar do cenário e o enredo razoavelmente pecualiar, eu consegui ver cenas conteporaneas no conto. é bem urbano, é bem hoje, bem vida real. o heroi que descobre que nao é heroi porra nenhuma, ou é.

Rachel Souza disse...

Vou ler. :)

AEmarcondes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
AEmarcondes disse...

procuravam a gema... procuravam gemer... enfim, muito espaço para dupla interpretação em um moderno conto de fadas... ou seja:
nada como um ménage à quatre!