Da taverna sairam os quatro amigos alucinados, cantando e corrompendo canções tradicionais. O ano chegava ao fim, e o cansaço do trabalho se misturava com a satisfação das obras realizadas ao longo do período. As barbas ficavam mais grisalhas na medida em que os pudores diminuiam, e a vontade de voltarem a ser meninos se esparramava nos atos infantis e boas criancices das maneiras de farrear.
- Hahaha, duvida que eu pule?
Gargalharam. Joaquim chegou a tombar no chão, reclamando - quase chorando - da dor do riso na barriga. Então, para a incredulidade de todos, Levi pulou.
- Ai, ai. Hahaha, tô vivo.
Ele não parava de rir lá embaixo, dentro da cova. Os amigos ficaram assustados no parapeito e tentatam chamá-lo, mas sem qualquer sucesso. Passada a excitação, Levi calou. Encolheu-se num canto, amedrontado, onde permaneceu por tempos muito demorados e silentes. Do escuro da cova, já avançada a madrugada, surgiu o espectro luminoso e fantasmagórico de um leão. A boca se abriu e o rugido soou vocálico:
- Par ou ímpar?
- Par - decidiu Levi.
Deu par e o leão se irritou. Outro espectro surgiu do escuro: era um homem muito grande e bonito, de pescoço longo, como os anaquins de Canaã. Tirou um dreidel do bolso e perguntou:
- Quantas moedas vocês tem aí? Preciso provar um ponto.
Levi tirou onze do bolso; o leão, dez.
- Vamos com dez então. Duas na primeira rodada?
Os três empurraram as moedas para o centro e o gigante bonito girou o peão: nun. Passou pro leão, que girou e: nun. Levi pegou o dreidel, fez a mandinga e lançou: guímel!
- Haha!
Antes da segunda rodada começar, Levi lembrou dos amigos. Levantou-se e gritou sussurado:
- Sadra, Joaquim, Nego! Cês tão ae?
Não houve resposta. Um cachorro uivava distante.
- Seus camaradas não te ouvem mais, Levi. Suporte e aceite a traição que você mesmo escolheu; custou-te maturidade, sacrifício, coragem e desprendimento. Ogulhe-se dela, homem, o tesouro da outra vida é muito mais reluzente. Aqui sua vida vai ser longeva porque sua cabeça é boa; até se comunica conosco, veja só. Quatro nessa rodada, vamo?
Nun. Nun. Guímel. O leão saiu da roda maldizendo todas as divindades babilônicas. O gigante foi consolá-lo no fundo da cova e também desapareceu na escuridão. Levi, sentindo-se sozinho e maluco, deixou-se embalar pelo sereno.
No dia seguinte acordou fora do covil, retirado por soldados rasos, e recebeu uma multa por vandalismo. Acontece que as autoridades tinham algum apreço por ele e resolveram não fazer drama. Em casa, Levi empunhou a pluma e relatou o acontecido nos documentos judiciais. Bom homem que era, discorreu condizendo com sua crença moral e espiritual; e é claro, sem contar sobre o gigante e o leão, já que preferia manter sã sua imagem. Resolveu que aquilo havia sido alucinação - medo, misturado com o fumo, a cachaça e o vento da madrugada. A única coisa que o perturbava verdadeiramente eram as vinte e três moedas no seu bolso; mas também resolveu que as havia ganhado na taverna - noite de sorte.
No documento, dizia que só por deus sobrevivera à cova cheia de feras famintas. Aliás, não soube, para si mesmo, explicar tal mistério de outra forma. Assim, dias depois de reescrever e editar o relato, enviou ao rei com as moedas de prata que quitariam a multa.
Ocorre que o rei, eventualmente talvez, simpatizou com o documento.