domingo, 21 de fevereiro de 2010

Conversa de Freis

Naquela noite o frei Conrado não cruzou o arco da catedral para discutir questões divinas ou ideológicas. Sentia-se meio abatido, seu trabalho o desgastara nos últimos meses. O novo rebanho era muito complicado. Fez a prece e se serviu de um nobilíssimo pinot noir importado da Borgonha, velho, complexo e intenso. Sentou-se com o frei Humberto e pôs-se a conversar sobre o amor de Deus: uma conversa recheada apenas de prazerosas concordâncias. Era um desses momentos preciosos da vida. Justificavam-se relembrando as razões pelas quais haviam feito aquela escolha vitalícia de que compartilhavam.

O diabo, maltrapilho, entrou pelo arco da igreja e se abrigou debaixo do último banco. Chovia lá fora, era noite de verão.

9 comentários:

Lírica disse...

Tem um velho, complexo e intenso aqui à sua espera. Mas não é da Borgonha. é da Argentina, mesmo. Hehehehehe.
Que final, hein? Vc botou e tirou a nobreza onde bem entendeu! Tirou do intelecto, botou no paladar, tirou da missão religiosa, botou na apreciação amistosa, tirou das verdades universais, escondeu embaixo do banco, nem que fosse pra abrigar o desgraçado, repulsivo e torpe que tem seu lugar no fundo de cada nobreza, ainda que clerical!
Breve, mas esmagador.

Guto Leite disse...

Eita texto intenso, parceiro! Se é prosa, é poema. Se é poema, é prosa. Nada deve aos dois gêneros, "só sobra". Interressantes esses veios que está seguindo, hein! Abração

Aron Matschulat Aguiar disse...

confuso literariamente onde?!
vitão, que coisa gostosa, caralho!
gostei dos comentários acima também.

"O diabo, maltrapilho, entrou pelo arco da igreja e se abrigou debaixo do último banco. Chovia lá fora, era noite de verão."

lindo.

mano... é de se degustar como o nobilíssimo do texto.

puta...

é o berço do diabo, cara, que gostoso. olha. todas as personagens estão no lugar devido.

conversa de amigos que esqueceram seu amor.

acho que foi o diabo que escreveu.

Aron Matschulat Aguiar disse...

aliás, legal vê-lo honesto.

Rachel Souza disse...

Um conversê ameno para quem pode ter o luxo de não beber Cantina das trevas... Salve o pinot noir de cada dia!rs

Cléderson disse...

Seus posts tem uma carga socio-filosófica que eu consigo entender muito bem (a gente morou no mesmo lugar por bastante tempo não?). Acho que é por isso que eu acho tão bom lê-los.

Cléderson disse...

além do fato de que você escreve muito bem mesmo.

Vieira Calado disse...

Com tantos blog,

não soube qual abrir.

Fecho com um abraço

marcos disse...

caraca meeeerrrmaooo....! belíssimo.

sempre há diabos nos butecos da vida, nem que seja sentado num banquinho ao fundo.