O banheiro do estúdio era velho e escroto: uma pia entupida e um vaso sem tampa, só. A torneira girava em falso e mechas de cabelo boiavam na água, cujo negrume refletia um familiar semblante que me mirava querendo participar deste lado da vida. Antes que eu despertasse da distração, percebi algo minúsculo na minha testa, como uma fenda em ruptura. Aproximei-me da água pra distinguir o movimento e com muita violência fui puxado pra dentro da pia por uma mão infernal. Minha testa bateu contra a porcelana e a mecha de cabelo entrou em minha boca agitada e desesperada, até que consegui sair daquele ventre demoníaco. Limpei meu rosto e cuspi um refluxo; um corpo nu emergiu da pia usando uma máscara que emulava meu próprio rosto. Flutuava, emanava luz incandescente e não tinha olhos - das fendas na máscara via-se apenas o oco de sua caverna craniana. Um movimento manual me possuiu, me ergueu do chão telecineticamente, e só então eu pude ver que ali não havia nada de mim. Aquela não era a minha imagem; era mágica, uma pequena ilusão de raposa. Quando constatei o fato, o corpo sem alma caiu no chão revelando-se uma barata fugidia. Acompanhei sua evasão rumo ao ralo.
Nunca mais quis ver meu reflexo no espelho daquele estúdio. Às vezes os reflexos enganam, dissimulam; são espelhos narcisistas que vivem num universo próprio, em busca de olhares cândidos que acreditem na verdade da imagem que veem.