segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Auras

Quando sorrio
minhas palavras riem

são alegria qual
risada de rabo tosado
e loura maçã rosada

amor qual
o de dois rapazes sinceros
que me comoveu no metrô

são qual o gargalho
de uma descoberta senil

mas quando entristeço
minha beleza emudece
e arrefece a poesia

vira qualquer desafogo

meto-me a inverno
parado em desapego
de cábula nevasca

e me divirjo desvairado
nos desalmados desatinos
dum espírito encharcado

5 comentários:

Aron Matschulat disse...

bonito meu querido
e ela tem a sua propria
igual a um verso do começo

um bjo

Livia disse...

Suas palavars que riem acabam contagiando todos que estão as sua volta.
Fiquei admirada de ver que aquele casal de gay te impressionou tanto pra vc lembrar e fazer uma poesia tão deles e ao mesmo tempo tão sua.
Tente olhar sempre pra "auras" que façam suas palavras rirem. Assim a parte final da poesia vai ser menos constante mais ainda sim não menos necessária.
Bejuss

Anônimo disse...

A bravura lírica dos jovens por vezes me choca, mas só porque os laços que prendem autor-leitor aqui são demasiado apertados pra uma apreciação mais relaxada. O termo "descoberta senil" me tocou especialmente pq estou dando de ter tais acessos e posso entendê-los melhor do que nunca. Estrnha-me sempre que a sua alma jovem tb o possa.
Saudade de seus comentários.

AEmarcondes disse...

Cara, rolou uma empatia profunda tanto na concepção das sensações como para passá-las sem perder o sentido da mensagem. Particularmente gostei muito do espaço que você deixa para devanear porém ainda sim conclusivo defendendo um ponto de vista.
ABS...( será q eu viajei?)

Heyk Pimenta disse...

Victor,

as violências à linguagem nesse trabalho foram longe e fizeram figuras e períodos muito cuidadosos com o subjetivo, sendo novos e cheios de forma e sentido.
Coisas como arrebentar a gargalhada e trasformá-la em "gargalho", "meto-me a inverno" e "vira qualquer desafogo", são facas fortes e bonitos cortes da forma nova.

"e me divirjo desvairado
nos desalmados desatinos
dum espírito encharcado"

Não vejo isso de, como disseram, o texto ser comprometido com uma posição definida, não enxergo você como um defensor e sim um flaneur, um paixão-móvel e empenhado com o desejo.

O trecho que separei me chamou a tenção além dos outros pela sonoridade não rimada, que gosto por ter a ver com meu trabalho e mais ainda porque é de uma sonoridade muito apegada ao seu conteúdo, e com os "dê's" e "vê's" do de-vir.

Ainda tem o rebolo no Chão sujo de São Paulo, o retrato homosexual dum dia de semana, essa ligação com o cotidiano data o poema, o que é maravilhoso ao contrário do que se tem dito porque é importância da inserção do meio real tirar o poeta da bolha de cristal para ser um vivente, quebrando a noção de dom ou iluminação,ave suor, e o resto o poema já faz porque é bom, colocando feixes bem organizados de sensação do dual passageiro e trabalhando uma faceta interesante da idéia de conflito, o "só reclama quem tá na merda", "só reflete quem se incomoda", "só na lama nasce a flor do lotus", "só da crise nasce a oportunidade".

Cada vez melhor, Victor. E olha que a seis meses atrás eu só passava raiva com seus textos.