domingo, 24 de agosto de 2008

A Nudez do Sorriso

As nuas damas do sopé da serra me enlouqueciam naquela manhã de praia. Eram divertidas e sensuais de um modo tranquilo. Seu sorriso me excitava muito mais que sua nudez. Amava as duas, e a mim mesmo. Mas sabia que uma tarde de praia daquela terminaria rápido.

Dá-se o término. E eu volto a um presente cinza, onde é dificílimo amar. Onde os sorrisos não mostram dentes, onde não há nudez. Onde é feita uma caminhada cronometrada e insatisfatória, em meio a um turbilhão de sonhos nus.

Neste cenário gris, nenhuma seriedade é aceita. A malícia é a suma lei vigente, e o pensamento é vetado. Sou um operário, e se um operário não é bom na prática, não tem valor algum. O bom é que conheço os dribles da malícia, mas sonho bem calado com a realidade.

Só sinto que o tempo passa rápido quando sinto que estou deixando de fazer algo fundamental. E os dias têm escorrido por uma parede que quase não se vê mais.

O líquido que escorre é escuro e opaco e cheira pessimamente. Entrevejo a parede em fendas eventuais do excremento, e minha ilusão se firma na esperança de que, na próxima vez que eu for à praia me encontrar com as nuas damas, irei lavar essa parede com a água do mar. Mas sei bem que uma praia de água só serve pra abrir uma fenda maior no líquido. Não se elimina o líquido assim. Aliás, não sei se há um jeito de eliminar o líquido da parede.

Cada praia me ressucita ao sopro das nuas damas e seus sorrisos. Minha alma se refaz nesse oásis. O cinza só existe por contraste à cor, e se filmado - penso que todos concordarão - é a coisa mais linda. E eu filmo com verbo pra que haja nudez ao menos em mim.


Escrito em três tempos: na volta da praia; no cenário gris; e de volta à praia, nela.

9 comentários:

Heyk Pimenta disse...

Ufa!

Achei que vc tinha virado um chinês pra sempre denovo.

Parabéns.

Ótimo. Como pode. a questão do cinza posta a prova como todos os feios que no sal de prata ficam fantásticos. Renovo-me na rua, o Oswald disse. Aí vc sai da sua casa que é o cinza, como ele sai da dele, que é a casa. E aí se renovam os dois do fora, a rua e a praia.

Tudo tem todo o sentido quando o martelo tem força o suficiente pra fazer tudo virar espada e ferradura, né?

É poesia mesmo, não esquenta.

Rachel Souza disse...

Nudez precisa! "Só sinto que o tempo passa rápido quando sinto que estou deixando de fazer algo fundamental. E os dias têm escorrido por uma parede que quase não se vê mais."
É, eu também.

Lírica disse...

Tenho, meu caro, incontáveis questões a respeito dessas metáforas... Sei que não responderás qualquer... mas as farei, ainda assim, quando nos virmos próxima vez, ou talvez, quem sabe, entre drinques ingleses e baforadas cubanas...
Em todo caso, vi muita poesia aqui... e me deleitei. Não exatamente nas damas... nem no líquido malcheiroso. Hehehe.

AEmarcondes disse...

as paredes cinzas me encarceram.
e delas, nem as cores se contrastam mais, pois hoje, tudo é cinza ao meu olhar.
e amanhã, meu maior medo, é que tudo negro seja. Que a luz se vá e que o breu reine para sempre!

Não sei se entendo o que você diz. Mas, para mim, tudo faz sentido!

Edu disse...

É Vitão...Procuro uma praia no meio do cinza, ou penso então em me mudar de vez!!

abs meu caro

compulsão diária disse...

Em meio ao cinza (curioso gosto da cor) os corações leves das damas nuas provocam sonhos no poeta. que lamenta a passagem do tempo. Dias escorrem pelas paredes. Será que não basta um mar de uma praia pra lavar essas paredes? Vc precisa do oceano, victor? Adorei o texto.
Beijos

Victor Meira disse...

Du,
muito bacana te ver por aqui, velhinho!!!

Bea,
Todo poeta precisa do oceano inteiro. Todo poeta precisa, talvez, mais qdo que isso. A transcendência disso. Para a parede do tempo, o oceano é um copo d'água.

Mau,
O maior medo dessa nossa juventude é que a luz se vá e que o breu reine para sempre. Gosto de pensar que a gente é responsável pelos nossos rolos de filme, pela nossa projeção. Que o cinza nos dê poesia para as - poquíssimas - horas coloridas. Né? Amém.

AEmarcondes disse...

Poxa velho... é bem isso aí.
hahaha, gostei muito da sua sugestão. Acho que faria bem um diálogo poético, qqr dia a gente tenta... e eu juro que teno mantê-las à altura.

abs.

felipe disse...

Filmar eh preciso! Pra gente pelo menos colocar o cinza num rolo de 35 e curtir

E assim, ao curtir, ao sonhar, o tempo nao passa tao rapido lah na cidade, nao eh?



gostei mto joe
abracao velho!