quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Confabulatório

Era cedo, e uma luz fria endurecia o aspecto da manhã; o tribunal assemelhava-se a uma catedral. O juiz era jovem, robusto, sábio. Sentou-se e contemplou mais uma vez o bem e o mal, separados por um mar de retórica podre. Segurava com a mão direita um amuleto em seu robe; pela primeira vez com a mão esquerda, assentou o martelo da ordem. O teatro calou intrigado. Uma força vociferante se ergueu em ímpeto, proferindo acusações que nada tinham a ver com o fato do presente caso. Em troca do pão e da promoção, usa-se a inteligência, a estratégia, e deixa-se de lado toda e qualquer sabedoria - esta, aliás, é a história do percurso da sociedade. Enfadava-se já deste lugar-comum, o juiz. Decidiu perder-se em seus próprios pensamentos. Vagou pela sensibilidade da maioria das coisas que julgava relevantes para si, enquanto seu cenho externava excepcional concentração e auspício no caso; um verdadeiro ator. Eis que as matracas emudeceram em exigência de uma decisão. Num dia comum, prorrogaria sua decisão e todos aceitariam de bom grado. Hoje, já que a manhã luzia dura e fria como que em uma catedral, o juiz arrancou o amuleto de dentro da robe - uma queixada de burro - e, inflamado em enérgica perturbação, atestou sua desumanização via barbárie. Ninguém escapou de seu julgamento.

6 comentários:

Eduardo disse...

Bem e mal...Creio que seja sempre uma questão de interesse!
A martelada -dentro de um contexto questionável- tem o poder de decidir, por bem ou por mal, o que é certo ou errado.

mto bom Vitão, abs

Lírica disse...

O que é isso que se encerra sob o manto das conveniências mesmo portando o cetro do poder, e tenta com o mais sincero zelo, ser justo mesmo com quem não quer sê-lo... mas num ímpulso ainda mais heróico, rompe com as convenções e irrompe tão estóico?

Ca:mila disse...

muito boa composição do cenário desse teatro de narrativa envolvente.

Rachel Souza disse...

Medo! Juizes têm poder. Isso não é bom...

Guto Leite disse...

Por mim, prosa mais do que dentro, Victor! Bom tom, estilo, teor. Não ligo para as rimas entre as frases, chamo Baudelaire pra defendê-las. Que beleza!

RM. disse...

eu nao sei escrever bonito que nem a sua amiga lirica, mas pra mim esse tal de juiz é Deus, e aquela manhã fria era o dia do juízo final.
eu gostei bastante!
beijoos