terça-feira, 19 de maio de 2009

Um curto espasmo amarelo

Caramba, dormi apenas 40 minutos de ontem pra hoje. Quando o alarme despertou, acionei, por hábito, os cinco minutos de lambuja. Mas logo ao apertar o botão, quis programar o alarme para mais 15 minutos (encarei a realidade do atraso). Permaneci, num transe semi-consciente, tentando programar o alarme sem sucesso. Devo ter feito o mesmo caminho - errado - repetidamente, dezenas de vezes. Só parei de tentar depois que se passaram os cinco minutos da lambuja automática: o alarme mugiu novamente, me tirando daquele estado de agonia. Então levantei.

Estou no túnel. Um espaço diminuto, subterrâneo, no abismo côncavo das órbitas oculares. Na fábrica, realizava tarefas simples; todos os trabalhadores estavam imobilizados, mas precisavam fingir atividade (talvez hoje nem precisem mostrar produção). E é bom esclarecer uma coisa: aqui em baixo não é um refúgio. Já é a duodécima vez. Acordo aqui toda vez que desmaio no meio dos maquinários. As gotas caem com um eco aquoso em algum canto dessa não-dimensão. Das outras vezes os ordenadores não tardaram a me resgatar: injetam doses tão alucinantes de cafeína nas minhas veias que minha cabeça entra num estado de nulidade, de puro caos epiléptico, anestesia e difusão. Fragmento. A visão mergulha num mar de mandalas embaçadas, imersas num halo escuro que envolve o todo - e jamais esmorece. Os ouvidos executam memórias de chorinhos amalgamados em guitarras distorcidas e tempos complicados de percusão - o estado da surdez exige enorme esforço. Ouço, finalmente, a chegada metálica dos ordenadores. Mil seringas se erguem qual najas e avançam antes que eu sequer tenha chance de pensar em um artifício de defesa.

Amarelo. É o aspecto que o mundo ganha. Amarelo puro, sem ouro, sem sombras e luzes, sem textura, densidade. A unidade de uma pureza insuportável. E então começa a arrefecer para o estado que eu já relatei. Agora eu já estou no meio da fábrica, com a mão esquerda apoiada em uma alavanca e a direita a postos num painel com dezenas de botões parecidos. Não sei por quanto tempo estive aqui, mas só agora fui acometido por este estado de consciência. Esse pensamento me incomoda muito: nem faço idéia do quão vitimado sou por estes estados de inconsciência. Mas acabo não tendo muito tempo para pensar nisso; talvez eu realmente precise mostrar alguma produção hoje. A fábrica é matrona. Te faz se sentir culpado por todo tempo sem produção. Um ordenador, envolto pela negra nuvem moral do poder, passa - de 10 em 10 minutos - vistoriando minha produção, destruíndo todos os cacos de privacidade e identidade que tento formar entre as frestas ao longo dos dias. O sono é a minha utopia: sonho com a cama e com o calor aconchegante das cobertas e me perco profundamente nesse devaneio monomaníaco. Toda minha vida consciente é vigiada - os ordenadores não dormem.

Enquanto a cafeína correr nessas veias claras, vou sonhar, na fábrica, com meu sono.

5 comentários:

Lírica disse...

Adorei o termo? Ordenador, que remete a computador em franc"es. Adorei saber que não sou só eu que acordo penalizada em ver minha carcaça atravessar a sala na penunbra de uma dia mal-amanhecido pra madrugar mais uma rotina proativa. Que bode, hein? E quem diria que seria o Fão a te acordar? Hahahahaha.

Rachel Souza disse...

O relógio e seu tempo tb me sacaneiam,me programo pra fazer as coisas e ele falta,me distraio e ele cobra...

Leonardo Curcino disse...

faz um tempo que nao passo aqui.decidi vir e ler tudodeumaveznumapancadasó.

faz algum tempo que ando dormindo mal. estou lutando para sair dessa fase de semi-consciencia.

abraço seu fela!

anna anjos disse...

acho teu blog incrível...!!

Tulio Malaspina disse...

Fala trem!!
O texto me agrada de uma forma especial... A fabrica é matrona.
Não sei se o pior são os ordenadores ou a minha consciencia teimosa.
Fora os flashbacks... muito me agradam!
Esse foi leitinho e toddy, lí duas vezes.
abraços che!!