domingo, 20 de setembro de 2009

O Motorista

A primeira coisa que a recepcionista notou foram as calças curtas demais. Ele tinha uns sessenta anos e era charmoso.

- Bom dia.

- Seja bem vindo, senhor D'Arpia. Aceita chá, café?

- Um copo d'água, obrigado.

Ela o conduziu ao sofá de espera; na mesinha de centro espalhavam-se revistas e jornais de vários países. Ernesto nunca trabalhou no Brasil. Pinçou a New Yorker da semana quando um senhor atravessou o arco do rol:

- Bom dia, senhor Ernesto.

Apertaram mãos e o outro fez menção a Ernesto, sugerindo que o acompanhasse.

- Me chamo Antônio, sou o chefe do departamento.

O hirsuto bigode de Antônio revelava um sorriso natural, típico dos tipos expansivos. Andavam por um largo túnel de mármore branco, decorado com quadros grandes, isométricos e equidistantes. O teto era abobadado e o longo corredor colocava o universo inteiro em equilíbrio.

Ao fim, chegaram ao escritório de Antônio, onde havia estantes cheias de livros, vasos de plantas e quadros maiores que os do corredor. Na escrivaninha, apenas um IMac e um cinzeiro velando um robusto cubano ainda aceso. O aposento era espaçoso, mobiliado com bom gosto. Antônio rodeou a mesa enquanto Ernesto se acomodava na poltrona de couro. O chefe do departamento lhe ofereceu uísque 15 anos, já servindo, e abriu uma pequena caixinha com diferentes tipos de charuto. Ernesto optou por um corona italiano e sorveu pequenos goles da bebida.

- Recebi seus papéis, sua experiência é admirável. Você é doutor-filósofo, não?

- Haha, isso. Meus artigos são publicados atualmente na italiana Segnalatore e na alemã Kupplung. São periódicos interessantes, possuem bons leitores; recebo muitas correspondências.

- Certo. Li semana passada sua crítica um tanto ácida acerca da inteligência do sistema de rotas em São Paulo.

Ernesto sorriu com os lábios fechados e olhos baixos. O chefe do departamento continuou, sorrindo também:

- Foi um artigo polêmico...

- Foi. Confesso que fiquei surpreso quando soube que foi publicado na íntegra. Eu mesmo considerava bastante provocativo, levando em conta o público leitor e as autoridades daqui. Mas alguns pontos precisavam ser explicitados, escrevi o que precisava ser escrito - disse, sorvendo outro pequeno gole. - Claro, como eu disse no próprio artigo, considero a capital paulista como um dos sistemas urbanos de trânsito mais modernos do mundo. Os cidadãos devem se orgulhar disso.

- Ah, sim, Lacorte fez um bom trabalho no último mandato.

- Acho que sim.

Antônio continuou folheando os documentos com uma mão, enquanto, com a outra, conduzia o robusto. Na ponta fulgiu uma longa brasa. Mesmo com seu tempo de profissão, após ter vivido tantas entrevistas de trabalho, o silêncio característico da ocasião constrangia Ernesto.

- Sua carteira e histórico também são invejáveis. Nunca levou uma multa sequer, em mais de 40 anos de trabalho.

- Os papéis não mentem.

- Bom - soltou uma baforada fina -, acho que é isso. É um grande prazer tê-lo aqui conosco. Os mais novos querem aprender com o senhor, e há outros motoristas renomados aqui - muitos dos quais você já bem conhece. Já recebi toda a papelada, tudo está dentro dos conformes. Vamos, vou lhe mostrar seu veículo.

No canto esquerdo da sala havia um elevador. No painel decorado, três botôes. Antônio pressionou o subsolo, e Ernesto teve a impressão de descer dezenas de andares. Quando a porta abriu, o motorista se deparou com uma esplendorosa obra arquitetônica, semelhante a uma casa de ópera, com um meio-piso no mesanino. Tudo ornado vitorianamente, ou de um jeito nouveau - mas nada parecia velho ou antiquado. Pelo contrário: o subsolo era um lugar maravilhoso, de dimensões épicas e requintes modernamente clássicos. Ordenadas ao longo do salão, frotas de ônibus novos se dispunham separadas pelas cores dos veículos - indicativos de região e rota. Havia, contudo, longos espaços de vagas vazias, já que era tarde de uma segunda-feira.

Ernesto sentiu-se bem naquele lugar iluminado, limpo e confortável. Andaram até o setor magenta, e Antônio parou em frente ao veículo 6418-10:

- Aqui está a chave.

O veículo era novo em folha, projetado no mês passado pelos designers do Sistema de Transporte de São Paulo. Possuia cantos arredondados, calotas de desenho complexo - mandalas substituíram o formato simples dos aros antigos - e sistemas de câmbio inteligente.

No ano de 2150 a carga de trabalho era menor - em qualquer profissão - e amplamente configurável. Optou por períodos noturnos no começo da semana; na quarta e na quinta não trabalharia, e na sexta faria o turno matutino e metade do vespertino. No sábado compareceria ao departamento para orientar novos motoristas e participar dos workshops. No domingo também descansaria.

Ernesto e Antônio subiram para o escritório e terminaram o uísque discutindo relações entre a psicanálise e o trabalho de Gordon Buehrig.

6 comentários:

Adriana Karnal disse...

é uma visão do futuro...gostei do texto.

Lírica disse...

As profecias costumam ser pessimistas. Mas um poeta de verdade sabe ver beleza, dignidade e... poesia até num futuro tão incerto quanto o nosso. E o que é melhor: nada do que vc vislumbrou é impossível. Nem mesmo um erudito conseguir guiar as massas! "Imagine all the people, living for today..."
Este texto me fez pensar na erudição que é possível a cada um, mesmo ao mais humilde e oprimido... mas que nenhum de nós reconhece ou valoriza...
E me fez pensar que problemas graves como o do trânsito em São Paulo só teriam solução com o engajamento de pessoas comprometidas com o que há de melhor. Mas sem demagogia! Pondo a mão na massa, mesmo!
As calças curtas remetem a uma pureza que nada tem a ver com ingenuidade.
A crítica ácida ao sistema de rotas não impediu a humildade de arregaçar as mangas, nem de reconhecer e atribuir valores.
"Ernesto nunca trabalhou no Brasil"... Isso tem muitas conotações narcísicas. Hehehehe.
Mas dirigindo, escrevendo, ou polemizando, o fato que Ernesto, sessenta anos, charmoso... estava disponível. Ele só queria o digno.

Cristiano Contreiras disse...

Tão inteligente e sensato, és seu espaço! vou te linkar. abs

Alice C. disse...

"O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente?"

Dênisson disse...

Cara... ficou otimo esse texto xD

d'Angelo disse...

Belo, belo texto. Tudo na medida certa: fluência, ironia, nonsense e etc. E um momento invejável: "um cinzeiro velando um robusto cubano ainda aceso".