segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O Convidado

Hoje sonhei com a pessoa que eu menos gosto, e pela qual, na contagem prévia das palavras e ações, sinto até certo pavor.

Pedro convidou-o ao seu apartamento sem o querer completamente, como se a vida houvesse agido sozinha e só agora o tivesse devolvido a consciência. O algoz se sentou ao seu lado e ambos conversaram, riram e depois conversaram, sempre sobre nada muito sério. A frivolidade garantia um jogo fácil - desgostoso, é verdade, mas descomplicado. Viam vídeos no youtube, imagens no ffffound. Tempos depois circulariam pela casa ou fariam outras coisas que Pedro não se convence de que tenham sido reais - uma hora se viu nu e de bruços no chão, por exemplo, mas teve a estranha impressão de que viu a situação pelos olhos do algoz.

Ficou depois com um amargo na boca, quando o outro já não mais estava presente. Era como se ele ainda estivesse, ou como se houvesse uma culpa insistente nos ombros de Pedro. Como se a presença terrível fosse uma constante anacrônica. O momento não havia findado em consonância com o tempo; suas possibilidades estavam vivas, como tentáculos ainda serelepes mesmo depois de serrados. O algoz persistia. Pedro era, em si, uma grande ferida, um pedaço de carne oxigenando, exalando dor.

5 comentários:

EduBarreto disse...

Ser o Pedro ou ser o algoz é questão de ponto de vista? Ou de momento?

coffee-break disse...

"mas teve a estranha impressão de que viu a situação pelos olhos do algoz."

profundo e cinematográfico.

escreve muito bem!

Tenório disse...

Genial, um assombro. Talvez eu só trocasse uma palavrinha (o folgado rs): consonância por sincronia. ou não, isso pode ser até mais óbvio.

Isaac Frederico disse...

Incômodo e talentoso, Victor.
Final apoteótico com "um pedaço de carne oxigenando, exalando dor", estupendo.

Renata disse...

arrepio. de novo.

outro bonito é que dá pra ver, em cada texto, o quanto você já leu nessa vida.

amo seu trabalho.
de novo.

beijo!