sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Encuentro

Liguei e mandei um email pra mostrar o desenho que eu havia feito. Dias depois ele estava pelo Brasil, e de alguma forma consegui marcar um café sexta à noite com ele. O encontro foi breve, cheguei uma meia hora antes. Ele veio com a namorada, uma moça adorável, mexicanamente charmosa, mais nova que ele. Eu estava muito excitado, o admirava muito e nenhum artifício racional era capaz de conter esse juvenil irremediável e transparente.

- It's amazing that you're here, man.

A energia da cafeteria caiu e tudo ficou escuro. As vozes ascendendo em reboliço divertiam-se com o susto, havia muitos jovens ali aquela noite. Não durou quinze segundos pra que a energia voltasse, mas quando foi iluminado, o ambiente estava vazio. Não havia nenhum cliente, ninguém atrás do balcão. Não havia carros lá fora. O único ruído vinha da cozinha e era agudo, como que pressurizado. Onde ele estava? Meu terror era confuso. Onde estavam as pessoas? Me levantei e fui até lá pra constatar que o barulho vinha de uma máquina de café soltando vapor de limpeza. Procurei o botão, mas antes de encontrá-lo bati o olho num desenho sobre o fogão: era o rascunho original da ilustração que eu havia feito pra ele, queimando do centro às extremidades. Eu não tinha tanto apego pelos meus próprios originais, mas me afligia tentar entender como o desenho viera parar ali, e quem o queimara. Talvez ele o tivesse queimado. O ruído de vapor parou sozinho. Então senti duas mãos me tamparem os olhos (como as crianças fazem) sem a pronúncia da pergunta que entrega o jogo. Tentei me desfazer, mas o enlace era quase como uma gravata e eu tive que lutar pra me soltar. Me curvei pra tentar lançá-lo e acabei esbarrando na máquina de expresso. Café frio caiu por toda minha calça e a cafeteira se espatifou no chão, puxando a tomada enroscada na prateleira das xícaras, que também voaram pelo ar junto com o café e o corpo do meu agressor. Quando recobrei a visão o procurei; não havia ninguém, mais uma vez. Vi apenas a cozinha em catástrofe. O vapor de limpeza quebrou novamente o silêncio e percebi que em cima do fogão estava o rascunho original do meu desenho. As caixas de som soaram com a minha voz:

- It's amazing that you're here, man.

Girei, procurei alguma coisa, o estranho, tudo, esperei tudo, corri até a quina das paredes mais próximas e me encolhi acocorado, ciente de que qualquer evento poderia acontecer ao termo de dois, nenhum, dez segundos ou anos ou milênios ou unidades divinas do tempo. Um elefante poderia sentar-se à minha frente, me exigir o aluguel, um café, a razão, um samba com cara de salsa como o que o Zezé tinha feito e que a gente chamava de Samba do Zezé, ou nada, absolutamente nada, o que seria terrivelmente mais assustador. Notei, por acaso (na verdade por olhar o chão enquanto minha cabeça se desfazia em tempestade), que na quina a gente não faz sombra; que essa nossa escuridão não está conosco, ou pelo menos se esconde atrás, debaixo da gente, e a gente enxerga a sombra de tudo o mais que há no lugar como um juiz, como o juiz rei do planeta.

- I-i-i-idz a-a-am-m-ma-a-az-zin t-tyou-u-u-ur-r-rh-he-e-e-er-r-re-e, m-m-m-ma-a-a-an-n-n.

A frase soou grave e tão lenta, vinda da garganta cancerígena do diabo, mas tão lenta que se arrebentava em fragmentos, em tons de metal, de máquina, de máquina de café e xícaras e overdrive, fundida com o vapor de limpeza, lleennttaa, torturando, me fazendo levar inutilmente as mãos aos ouvidos como se ouvessem dois buracos nas palmas, chagas nunca cicatrizadas, arrombadas, enormes. O som parou junto com o vapor e a treva sonora se derramou novamente na cozinha.

Fiquei esperando o momento da recomposição. O momento em que eu veria tudo retornar lentamente, como o m-m-ma-a-a-a-an-n-n-n, as xícaras flutuando e se reunindo, talvez mantendo algum resquício memorial do pesadelo (uma redondilha de café frio), a máquina se restaurando com todo o seu conteúdo inútil, destinado a ser jogado no ralo, o agressor voltando a nunca ter existido e meu desenho voltando a nunca ter estado na cozinha daquele café. Num piscar de olhos eu me perceber sentado à frente dele, voltando por um tunel ainda a tempo de escutar as últimas sílabas tyou're here man e ve-lo sorrir pra mim e para a namorada.

Fiquei esperando. O vapor de limpeza fez que voltaria a gritar, mas engasgou logo em seguida por falta de água. Zin t-tyou're here man, e vi seu sorriso muito antes do que eu esperava.

9 comentários:

Renata disse...

Pra variar, blew my mind.

Uma coisa que me faz voltar e voltar a sua obra - e a do Aron também - é, ao final do texto, o arrepio que me acomete do dedão às pontas do cabelo.

É um arrepio de excesso de vida.

Eu amo o trabalho de vocês.
Direi sempre.

Beijos, mano!

Aron disse...

Posso filmar?
Demais vitão...
vamo conversa?

Re, amo vc! (e vc tb vitao!)
:D

Rolando disse...

Olá. Tudo blz? Estive por aqui. Passa lá. Abraços.

Di disse...

Demais, mas que brisa não... era doce?

Anônimo disse...

A sua habilidade para transformar idéias em imagens dinâmicas não só é atual. como inovadora porque traz sempre um componente surpreendente que transforma a imagem de novo em idéia num reinvestimento incrível. Por exemplo, a idéia da imagem sem sombra remetendo a algo em quina... on the edge. Isso faz a gente quase deslisar pela tangente. Ou deslisa mesmo!... porque como é que se fica nessa imagem tão instantânea que enm negativo tem? E vc sugere deslisar junto com o leitor num percurso bem esquizo, mas que ao mesmo tempo se cobra qualquer lucidez e acaba em outra quina, outra esquina, outra esquiza, mostrando que não há saída nem pro real, nem pra o imaginário. Mas aí a gnt já tá completamente capturado numa dimensào qualquer junto com esse autor sequestrador de nossa atenção. Muito bom. Muito bom mesmo.

Larica

Leo Curcino disse...

que delícia de ler! (:
como diz vc "que brisa". mas é vida isso!

Marc de Gondolfo disse...

Bonjour Victor

Obrigado. Merci pour tes commentaires qui font plaisir. Je ne peux pas repondre en ce moment car je suis en deplacement pour une longue dureee avec peu de moyens de communications. Tu peux publier ce que tu veux et je reviendrai ici plus tard.

Je connais San Paolo et j ai de tres bons souvenirs du Bresil.

Muito bom.

Marc de Gondolfo

Isaac Frederico disse...

Fala Vitor !
Me passa seu e-mail por favor, tou precisando te escrever umas linhas.
O meu é isaacfrederico@gmail.com
Abraços !

Isaac.

O mundo de Dani disse...

E tudo isso numa questao de segundos.
Fazia um tempo que nao lia as palavras altamente convidativas de um poeta e escritor. Gostei de Encuentro. Um filme ou um capitulo de um livro ? Se nao, poderia ser.

Saudacoes!