Hoje sonhei com a pessoa que eu menos gosto, e pela qual, na contagem prévia das palavras e ações, sinto até certo pavor.
Pedro convidou-o ao seu apartamento sem o querer completamente, como se a vida houvesse agido sozinha e só agora o tivesse devolvido a consciência. O algoz se sentou ao seu lado e ambos conversaram, riram e depois conversaram, sempre sobre nada muito sério. A frivolidade garantia um jogo fácil - desgostoso, é verdade, mas descomplicado. Viam vídeos no youtube, imagens no ffffound. Tempos depois circulariam pela casa ou fariam outras coisas que Pedro não se convence de que tenham sido reais - uma hora se viu nu e de bruços no chão, por exemplo, mas teve a estranha impressão de que viu a situação pelos olhos do algoz.
Ficou depois com um amargo na boca, quando o outro já não mais estava presente. Era como se ele ainda estivesse, ou como se houvesse uma culpa insistente nos ombros de Pedro. Como se a presença terrível fosse uma constante anacrônica. O momento não havia findado em consonância com o tempo; suas possibilidades estavam vivas, como tentáculos ainda serelepes mesmo depois de serrados. O algoz persistia. Pedro era, em si, uma grande ferida, um pedaço de carne oxigenando, exalando dor.