segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O Enigma do Tempo

No templo havia um enigma que fora forjado no oriente. Assemelhava-se a uma corrente; três peças, dois elos. Entre os elos, magras fendas pelas quais, ao menos teoricamente, deveriam passar as peças polares. O desafio era este: desunir a corrente, separando-lhe as peças.

Em cada templo que entrou, ao longo de sua trilha, o monge enfrentou o desafio que lhe fora proposto. Até então era como compreendia a vida, e a vida se lhe punha desta maneira. Nunca houvera enigma, por ele, irresoluto.

Tranqüilo, o monge sentou-se meditabundo, examinando o pequeno artefato em mãos. Testou a passagem pelos elos sem resultados positivos. Girava para o estudar como um todo. O enigma exigia meticulosidade e concentração.

Muito tempo se passou, e o monge virou o senhor daquele templo, uma vez que nunca venceu seu desafio. Pensou, no início, tratar-se de uma piada dos deuses; um enigma eterno. Depois de doze invernos aprendeu a reparar o mundo de outra forma. Aprendeu a respeitar sua própria capacidade, mesmo que nunca tenha parado de combater aquele desafio. Cada tentativa lhe semeava novos entendimentos sobre as coisas. Entretanto, nunca deixou de se questionar: e se aquele objeto fosse verdadeiramente um enigma impossível?

Quando completou oitenta e quatro anos de idade, um jovem monge apareceu em seu templo. Recebeu o enigma nas mãos e o resolveu em alguns minutos.

O velho quase não tinha mais ânimo para a perplexidade. Congratulou o jovem gênio desejando-lhe boa ventura em sua odisséia. Depois, adentrou seus aposentos com a cabeça e o orgulho em frangalhos, e seus olhos buscaram o instrumento de uma recente disposição; voltou ao salão do templo e encontrou o jovem, que findava uma prece. Sacou sem delongas uma fina adaga e a meteu no ventre do rapaz. Seus olhos injetados encaravam com fúria vingativa o terrível aspecto de sua vítima. Forçou a lâmina em direção ao peito e sentiu as vísceras do outro cederem. Por fim, empurrou o corpo para longe de si, esperando sua queda. Entretanto, houve resistência: subestimou a juventude e a virilidade do jovem monge, que investiu contra seu corpo caduco e, com os dedos a perfurar a pele de seu pescoço, o matou rapidamente por estrangulamento. O jovem cedeu logo em seguida, e seu sangue maculou o templo e seu artefato.

Uma década se passou até que um novo andarilho contemplou aquele salão. Ali, viu dois esqueletos jazendo junto às três peças de um artefato distinto. Desarrazoado, temeu espiritualmente o enigma daquele lugar. Pegou as peças e percebeu sua semelhança; logo, distinguiu: juntar as peças cindidas era o desafio daquele enigma.

9 comentários:

Raisa Inocencio disse...

Geralmente é o discípulo que mata seu mestre, mas o mestre (no caso o velho) é que mata...
sem falar no final total eterno retorno.. adorei!
;-)

Heyk Pimenta disse...

Aaaaahhhh!

Very good, meu gato.

Que coisa heim.

Fantástico.

Como quando muda a cena e o jogo o jogo e o fim é realmente outro.

Essa foi muito boa.

Aliás: o começo é curiosíssimo: tenta pensar mais coisas para essas peças, as explique, às desenhe, muito bom. O nascimento de lendas e enigmas universais serve bem pra acompamentos e jantar de família: dá o que falar.

òtimo!

Lírica disse...

IRRETOCÁVEL!

Rachel Souza disse...

Belo, bem construído... Só não gostei do "desfecho", justamente por ter essa cara, de desfecho, de grand finale, sabe?
Bjo.

Ca:mila disse...

quem espera sempre alcança a vingança que se come fria?

RM. disse...

eeii respondendo o seu post no meu..hahaha..
EU TO COM ALGUM BLOQUEIOO nao eh possivel!! nao sei sobre oq escrever mais!!
eu nao li seu texto pq eu to no trabalho e nao da tempo, mas depois eu leio!!
aliás, vo mudar pra uma agencia pra ser blogueira, olha que máximo!!
beijooos

compulsão diária disse...

Elos, corente feita de engima!! Poxa, victor, assim você assola o leitor com o estranho, com o suspense diante do não saber mas sentir. sem palavras. significante enigmático puro

Victor Meira disse...

Hahahaha, Camila, achei engraçada o impulso de fechar com uma resolução moral, como entendimento. De fato, a narrativa se assemelha à fábula.

Bea, bacana. O enigma protagoniza a narrativa como desafio ao entendimento humano. Legal que gostou.

Certo.

Leonardo Curcino disse...

acho banaca a variedade do seu repertorio. vc escreve distintamente sobre coisas distintas! :)