terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Fulano-marinha, Escorbuto

Pro documento do poeta tem borracha que desfaz a andança do argumento.

Tudo bem, poeta, escrevo a lápis. Nesse primeiro quadro há dois marinheiros na costa, entende? Aliás, apaga: em alto mar - pra que haja boa maré brava. Chove forte, e todos os marinheiros no convés catam baldes pra jogar fora o excesso da chuva. A chuva arrefece em já ponto baixo do sol, quando um dos marinheiros, ao lançar uma baldada de água ao mar, volta com o balde - sem vil propósito - na cabeça de um companheiro. É o suficiente pra reunir os homens em roda, e aproveitar o fim da luz do dia com uma boa briga chuviscada. O marinheiro contundido não quer saber das poucas escusas do outro, e ambos metem seu orgulho com punhos firmes na cara e fuça um do outro. Os dois são simetricamente fortes, e os berros atraem as autoridades. Ninguém sabe de nada: em dois segundos tá todo mundo jogando fora água da chuva. O brigadeiro vem e dá de vara na cabeça do primero contundido - coitado. O outro, com pretensão de escapulir, leva nas pernas, e agora os outrora esbravejadores e encorajadores da briga amarram os briguentos para o açoite. Brada o algoz do furioso mar, brandindo a corrente cravada de pontas engorduradas de outros sangues: desfere...

Quebra a ponta. O pincel desfere um chuvisco vermelho de dor. Tudo escurece novamente; as vertigens se tornam frequentes, e o enjoo tortura os sentidos. O som do mar ruge no fundo trancafiado do porão onde o artista digere o episódio de ontem. Morreram dois brigões, de tanto botar sangue pra fora. Talvez chovesse dentro deles, e houvesse marinheiros jogando o excesso pra fora dos corpos. Mas aí é como se houvessem tirado a água do mar junto: os dois navios - homens como bons cães - jaziam, dando à luz as tripas e tinta vermelha no deserto do convés. Zé-ninguém acode em razão do pudor ante a visão desgraçada - e um pouco por ordem da autoridade também - lançando tudo ao mar...

O óleo seca na pintura pronta. À caneta: nome, dia, e lugar - o meio do oceano. Fulano-marinha, escorbuto, grande homem, sentiremos falta, pêsames, assinado: autoridades. Uísque com rum, sem risada, sem carranca. O mês vai acontecendo entre fúria e calmaria, aves no céu e ocasionais tempestades; noites de sonhos escuros, imemoráveis, e dias onde nada é imediato. Um desnúmero de dias até o próximo cais, onde se joga também entra a fúria e a calmaria, mandando as cartas-de-choro para os parentes.

8 comentários:

Lírica disse...

Oi, Allan Joe! Homens ao mar? Isso é que é imagética, hein? Lembrou até Quentin Tarantino! E é tudo tão solto, insólito, instável, desapegado, sem chão... Como uma outra dimensão... com leis próprias_arbitrárias_ e com incidentes banais levando a desfechos trágicos. Aí a gente diz: peraí... outra dimensão, xongas! Isso é aqui mesmo! Tem umas figuras de linguagem e outras de imagem mesmo que são atordoantes. Belíssimo exemplar de realismo fantástico. Amei.

Guto Leite disse...

Vitctor, é um conto muito bom, cara! Para mim, irrepreensível! A forma como as imagens se constroem, a história interessantíssima, tudo de primeira! Abraço e arte!

d'Angelo disse...

Muito bom seu polígono rubro. Proseado preciso, cadências gostosas de percorrer, surpresas sucessivas, belas sonoridádivas.

Adriana disse...

A construção das imagens é de primeira, a descrição é minuciosa e a escolha de palavras combinam com o contexto, ótimo!

Eduardo disse...

Fala Vitão, confesso que tenho lido seus textos mais de uma vez.

Cara curti muito este, parabéns!! O navio e a chuva, os marinheiros e o sangue. Gostei muito da construção.

Esso aê, rapá!! abs

Miguel Barroso disse...

Muito cinematográfico. Bom. Muito bom.



Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

Deborah Icamiaba disse...

Ei Vitor. Gostei do que escreves. E que maravilha ter um blog quase todo autoral...é tb meu projeto. Estarei de olho. bjs. D

Leonardo Curcino disse...

cara... ta tudo tao solto e tao instavel nesse texto que o ritmo ficou bacana. senti um tom despretencioso no texto e vi trechos marcantes como "Fulano-marinha, escorbuto, grande homem, sentiremos falta, pêsames, assinado: autoridades."

muito bom meu caro victao! muito bom!