sábado, 24 de janeiro de 2009

Setenta e Seis

Inflamado, o profeta:

- Já digo que é tarde da tarde nessa ruína, e o que vejo não tem revisão nem volta. A chuva que começou ao sul vai devastar todas as capitais do sudeste e os homens vivos ficarão intactos, mas seus computadores não ligarão mais. E não duvidem: vão continuar com seus dedinhos teclando o imaginário, ensopados em coberturas sem teto dos arranha-céus destruídos. Os poetas roerão dedos feridos de angústia e se misturarão, perdidos, em debates; precisarão reinventar a voz. Todas as cabeças vão estar gotejando entre perambulagens capitais. O asfalto vai se partir e nós, profetas, plantaremos trigo na frente dos supermercados e dos museus, que é pra ninguém temer, porque tudo vai ficar muito bem, podem confiar.

A noite vinha alaranjada luzindo as costelas do perro, e ambos iam sem previsões: um dueto de ganidos famélicos. Surge de uma dimensão apática um tilintar entre os dedos de um jovem, que lança setenta e seis centavos à mão do profeta: o valor exato daquela profecia.

10 comentários:

Ca:mila disse...

Gosto do último parágrafo,

ainda outro dia, lancei 2,00 na mão de um profeta gentileza-nostradamus... já a profecia, morreu na praia depois de muita água beber.

d'Angelo disse...

Um apocalipse peculiar, que não poupou nem a infernet...

Bagunceiro disse...

Profetas são encontrados todos os dias na Sé. É um mar de profecias e de feitiços...

Passe por lá ao redor de 12h e deixe seus ouvidos a postos...

Lírica disse...

Tudo pode acontecer... ou não... a verdade será mesmo uma construção? Se for, é por isso que precisamos crer? E quanto vale essa crença? vale a viga que sustenta a parede, a telha, o cimento... e tudo o mais que forra nossas cabeças e faz escorrer o temporal? Valemos o que cremos? Ou cremos no que valemos? Por que os profetas têm essa pecha infame de indigência e loucura? Ou será a loucura que parece uma profecia viva? Ou será a indigência, nossa nudez profetizada?
E esses guisos em meus bolsos? Por que os dou e em troca do quê? Por que jogar migalhas aos que grunem nossa sorte se a nossa morte é a mais certa profecia, ainda que silenciada?

EduBarreto disse...

"...precisarão reinventar a voz"

Tá precisando mesmo. Adoro a internet, mas muita gente se esconde atrás dela.

Adriana disse...

Teu final é feliz, é o que importa.A profecia? seja qual for, merece os centavos quando tudo dá certo, pode crê.

anndixson.blogspot.com

Luciano disse...

Belo texto, com algo de sagrado e de profano...

Heyk Pimenta disse...

E sabe meu caro, que, quem dá o valor exato pra tendeiro é mesmo quem paga. Pagou certinho e se tivesse dado cem tava certinho também.
Quanto ao profeta, tô com ele, e torcendo pra maquininha dele tá funcionando descentemente. Parabéns pra ele.

E pra ti, querido. Um texto novamente. Li pra caroll aqui em casa e ela também gostou.

compulsão diária disse...

Profeta, essa imagem já de praxe na tua prosa cada vez mais exata, mais sob medida. alta costura, aqui

Rachel Souza disse...

Apocalipse segundo Victor Meira.rs