domingo, 26 de abril de 2009

Amor de metrô

Meta-me os olhos de cimitarra
pra que a cigarra cante os espólios da batalha
e eu nunca mais te veja

Escrevi esse poema no ano passado, despretensioso, mas com bastante sinceridade. Escrevi no ato, quando o sentimento me acometeu, no metrô. Só hoje descobri que eu gosto bastante dele, durante uma leitura lá no sarau da Poesia Maloqueirista, na praça Roosevelt. Caco e Berimba, valeu pelo espaço e pelo carinho. Vamo nessa.

domingo, 19 de abril de 2009

Revelação Sabatina

Fui acometido por uma vontade irreprimível de me jogar pela janela. Levantei, tomei um resto de carménère que havia em cima da geladeira e me lancei do décimo andar. Durante a queda, o mundo se revela: um escuro não absoluto, cheio de linhas translúcidas e coloridas que formam o desenho da paisagem que se move muito rápido. Tudo transparece, tudo fica nu.

Da janela, corro até o parapeito para observar meu corpo em queda, se movendo desajeitado, mas pacificamente. Um par de namorados passa do outro lado da rua, em direção contrária à de um menino que vaga sozinho. Na janela do hotel, um casal de meia idade fornica. Há um carro vermelho - não sei diferenciar carros por marcas - na direção do meu corpo que cai. Surgem, dessa queda, confabulações e imagens. Por um instante decido não ver o sangue do fim, e me lembro do vinho em cima da geladeira. Entretanto, não consigo deixar de ver o desfecho, e permaneço na janela.

Um barulho seco abala a tarde sabatina.

Quando abri a porta, logo depois de estacionar, meu próprio corpo caiu como um meteoro do céu, quebrando o vidro da frente, e me salpicando de cacos e sangue. Saí às pressas do carro, terrivelmente chocado. Do outro lado da rua, notei abismado que eu estava morto em cima de um carro vermelho. Segui meu olhar para o provável ponto do salto, e me vi, lá na janela do décimo andar, observando tudo.

Momentos depois, eu apareci em dezessete janelas ao redor do incidente. Minhas expressões variavam do horror ao espanto, do choro à palidez. Na janela do quarto andar eu só mostrei indiferença.
O mundo acontece numa profusão de realidades paralelas.
Depois, o porteiro chamou a ambulância.

sábado, 4 de abril de 2009

Medo Grisalho

Os sons do fogo atirado trilhavam o risco de uma emersão assertiva. Me perdi no tempo em um esconderijo onde se atrofiavam meu rifle e meu espírito. Quanto mais avançava a guerra, menos eu arriscava a minha cabeça. Um soldado se lançou no refúgio em que eu me acocorava, assustando-me sobremaneira.

- Cadê o comandante? - perguntei num impulso, buscando um norte, uma razão.

- Levou quatro tiros ontem. Caramba, há quanto tempo você tá aqui?

Sussurrávamos. Ele tinha bigode grisalho e uma faixa azul atada ao braço que segurava a metralhadora. Eu estava naquele canto há muito tempo, famélico e num estado quase narcoléptico, sem saber de qualquer situação estratégica ou numérica da batalha.

- Nem sei mais... Mas então, o que fazemos? Qual é a ordem?

- Nenhuma. Os capitães também foram alvejados. - pausou, respirando com mais calma. - Aliás, pra quê um comando, do jeito que as coisas andam?

Deduzi que nosso lado perdia. Logo, cada um por si, e salvem-se os fortes. Comecei a sair da tocaia para acabar de uma vez com aquilo - pra descobrir se eu era um dos fortes - mas, impetuoso, ele me puxou de volta:

- Onde você pensa q-

- A gente tem que-

- Idiota, olha aqui, os comandantes deles também já estão mortos. O campo agora tá minado com soldados escondidos, todos com a cabeça estragada que nem a tua. Cê não vai sair daqui, entendeu? Se sair vai acabar levando bala de gente nossa. Tá vendo isso aqui?

Desafivelou o capacete no queixo e meteu o objeto no meu peito.

- Isso é um tiro de raspão. A morte beijou minha têmpora, soldado, tá entendendo? Não faz nem dez minutos, foi logo aqui na frente.

Me olhou com profundidade. Desceu devagar os olhos, então, prendendo o capacete no lugar. Eu apenas olhava espantado, como se um milagre de um épico houvesse sido contado pelo próprio...

- ...herói.

Escapou. Ele me deu um murro na cara. Achei que mereci. Depois, ele disse, recomposto:

- Sabe o que aconteceu? Acaso, soldado. A mão do vento soprou a morte para uma próxima. Sou um sortudo, e só, e agora o mundo é um punhado de malucos espalhados por aí, um querendo matar o outro pra poder sair vivo. Quem não mata, morre. É simples.

O soco me trouxe algum sangue à cabeça, dissolvendo minha passividade:

- Vou morrer a qualquer hora feito louco, ou de fome. Não tem diferença. Acho que perdi o instinto de sobrevivência que me mete o medo: agora meu corpo exige o desespero. Aliás, já devem todos estar assim.

Meti decidido a cabeça pra fora do esconderijo, empunhando o rifle preparado, sondando qualquer ameaça.

- Tá tudo limpo, não tem ninguém aqui - disse sem olhar pro soldado veterano. O silêncio me fez voltar a cabeça em sua direção.

Ele não estava mais ali. Não havia mais ninguém. Percebi que há minutos também não se ouvia os barulhos do fogo. Tudo silenciava terrivelmente num espiral morrediço que envolveu um raio de quilômetros. Resolvi sair então da tocaia e comecei, feito zumbi, a caminhar por entre os escombros e fumaça. Caminhei por quase uma hora, em círculos cada vez mais largos. Decidi voltar para a base de comando, onde haveria leito e suprimento.

Cambaleei por muitas horas até chegar. Alguma coisa fora destruída, mas, em geral, as estruturas resistiram. Não havia uma alma no mundo. Confundi a fome com o silêncio, o sono com a solidão, o céu com a realidade.

Comi até me fartar, sozinho, olhando para as mesas rústicas e compridas, vazias. O único herói da guerra havia desaparecido. Sentia ainda resquícios de seu soco enquanto mastigava. Para onde teria ido? Sumira tão de súbito. Haveria sido sonho, alucinação?

Fiquei a me perguntar se havia soldados escondidos em tocaias. Talvez a morte não me quisesse tanto. Talvez todos os homens tivessem resolvido dormir - já que isso também está no protocolo dos instintos de sobrevivência.

Dormi por mais de vinte horas. Quando acordei, o mundo continuava um mistério. Não havia nem aves, e as árvores não são vivas o suficiente para o alento de um homem sozinho. O lugar implorava para ser explorado, mas, depois de dormir e me alimentar, o medo recuperara as forças.

Volta e meia a memória do soldado veterano me cruzava os pensamentos. Quanto mais passava o tempo, mais sua lembrança se vitimava por enigmas da minha mente. Depois de tanto dormir, não poderia ele ter sido sonho deste último sono recente?