sábado, 24 de janeiro de 2009

Setenta e Seis

Inflamado, o profeta:

- Já digo que é tarde da tarde nessa ruína, e o que vejo não tem revisão nem volta. A chuva que começou ao sul vai devastar todas as capitais do sudeste e os homens vivos ficarão intactos, mas seus computadores não ligarão mais. E não duvidem: vão continuar com seus dedinhos teclando o imaginário, ensopados em coberturas sem teto dos arranha-céus destruídos. Os poetas roerão dedos feridos de angústia e se misturarão, perdidos, em debates; precisarão reinventar a voz. Todas as cabeças vão estar gotejando entre perambulagens capitais. O asfalto vai se partir e nós, profetas, plantaremos trigo na frente dos supermercados e dos museus, que é pra ninguém temer, porque tudo vai ficar muito bem, podem confiar.

A noite vinha alaranjada luzindo as costelas do perro, e ambos iam sem previsões: um dueto de ganidos famélicos. Surge de uma dimensão apática um tilintar entre os dedos de um jovem, que lança setenta e seis centavos à mão do profeta: o valor exato daquela profecia.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Fulano-marinha, Escorbuto

Pro documento do poeta tem borracha que desfaz a andança do argumento.

Tudo bem, poeta, escrevo a lápis. Nesse primeiro quadro há dois marinheiros na costa, entende? Aliás, apaga: em alto mar - pra que haja boa maré brava. Chove forte, e todos os marinheiros no convés catam baldes pra jogar fora o excesso da chuva. A chuva arrefece em já ponto baixo do sol, quando um dos marinheiros, ao lançar uma baldada de água ao mar, volta com o balde - sem vil propósito - na cabeça de um companheiro. É o suficiente pra reunir os homens em roda, e aproveitar o fim da luz do dia com uma boa briga chuviscada. O marinheiro contundido não quer saber das poucas escusas do outro, e ambos metem seu orgulho com punhos firmes na cara e fuça um do outro. Os dois são simetricamente fortes, e os berros atraem as autoridades. Ninguém sabe de nada: em dois segundos tá todo mundo jogando fora água da chuva. O brigadeiro vem e dá de vara na cabeça do primero contundido - coitado. O outro, com pretensão de escapulir, leva nas pernas, e agora os outrora esbravejadores e encorajadores da briga amarram os briguentos para o açoite. Brada o algoz do furioso mar, brandindo a corrente cravada de pontas engorduradas de outros sangues: desfere...

Quebra a ponta. O pincel desfere um chuvisco vermelho de dor. Tudo escurece novamente; as vertigens se tornam frequentes, e o enjoo tortura os sentidos. O som do mar ruge no fundo trancafiado do porão onde o artista digere o episódio de ontem. Morreram dois brigões, de tanto botar sangue pra fora. Talvez chovesse dentro deles, e houvesse marinheiros jogando o excesso pra fora dos corpos. Mas aí é como se houvessem tirado a água do mar junto: os dois navios - homens como bons cães - jaziam, dando à luz as tripas e tinta vermelha no deserto do convés. Zé-ninguém acode em razão do pudor ante a visão desgraçada - e um pouco por ordem da autoridade também - lançando tudo ao mar...

O óleo seca na pintura pronta. À caneta: nome, dia, e lugar - o meio do oceano. Fulano-marinha, escorbuto, grande homem, sentiremos falta, pêsames, assinado: autoridades. Uísque com rum, sem risada, sem carranca. O mês vai acontecendo entre fúria e calmaria, aves no céu e ocasionais tempestades; noites de sonhos escuros, imemoráveis, e dias onde nada é imediato. Um desnúmero de dias até o próximo cais, onde se joga também entra a fúria e a calmaria, mandando as cartas-de-choro para os parentes.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Duzentas

Quantos ovos a pisar
onde a casca é estrangeira
e a poesia é emigrante
ante a beira do mistério
povos típicos da confusão
estouram estribilhos feitos de escuro

Uma
duzentas mil dúvidas